Roteiro de 1 dia em Florença, a capital da Toscana

Começo o relato da minha passagem por Florença com um desabafo: o arrependimento que eu amargo de ter reservado apenas 1 dia para essa cidade incrivelmente fofa, daquelas que dá vontade de colocar em um potinho e levar pra casa!

Mas isso só me deixou uma certeza: a de que eu ainda voltarei com mais calma para apreciar a bela Firenze!

Florença é a cidade italiana considerada o berço do Renascimento e a capital da região da Toscana. Considerada como o centro de início do humanismo europeu, a cidade é parada obrigatória para quem é amante da arte. Então tenha em mente que a cidade respira arte!

Apenas para ilustrar o seu potencial, a cidade é a terra natal de grandes personalidades italianas, tais como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Dante Alighieri, Nicolau Maquiavel e ninguém menos do que Galileu Galilei!

Embora a cidade mantenha essa atmosfera nostálgica, atualmente é bastante agitada, com boa comida, vinho fantástico, mercado de moda mundialmente conhecido e uma energia descontraída. E apesar de ser uma cidade pequena, há muito o que ver e fazer!

O transporte público de Florença é bastante eficiente, mas vai por mim: você não precisará de meios de transporte para se locomover, pois o centro histórico é compacto e completamente acessível. Então só precisará de sapatos confortáveis, garrafinha de água e bastante apetite!

Chegamos a Florença pela estação central de trens (Firenze Santa Maria Novella), em uma viagem que partiu de Roma e durou cerca de 1 hora e 20 minutos. Em outro post detalharei como é viajar de trens rápidos pela Itália. A estação não fica necessariamente no centro histórico ou ao lado do Duomo (ponto principal da cidade), mas fica distante cerca de 1 km que dá para ir caminhando tranquilamente.

E Florença segue o mesmo padrão de hospedagem cara que observamos pela Itália. Ficamos hospedados praticamente ao lado do Duomo, em uma espécie de pensão chamada Prestigia Rooms (instalada em alguns andares de um prédio histórico), que reservamos pelo Booking. A hospedagem parece ter sido reformada recentemente, então a estrutura estava impecável e a anfitriã era bastante solícita (e falante!). Realizado o check-in, era hora de sair para explorar a cidade, pois tínhamos pouco tempo.

Começamos, logicamente, pela praça central onde está localizada a igreja símbolo da cidade, que é a Catedral de Santa Maria del Fiore, conhecida como Duomo de Florença. Como no centro histórico não podem ser construídos prédios muito altos, a cúpula vermelha da catedral se destaca e pode ser avistada de diversos lugares da cidade.

Catedral de Santa Maria del Fiore, Florença

O Duomo é uma das obras-primas da arquitetura gótica e tem capacidade para acomodar até 30 mil pessoas! Esse tamanho lhe garante a 5ª posição no ranking de maiores igrejas do mundo. A fachada da catedral é revestida em mármore de cor rosa, verde e branco, o que é a sua marca distintiva.

Duomo de Florença

Contudo, a inspiração gótica da igreja resulta em um interior bastante sóbrio, bem diferente de todo aquele ouro e esculturas que encontramos nas igrejas de Roma. Mas a famosa cúpula não deixa a desejar: nela estão os lindos afrescos de Giorgio Vasari, que produziu uma incrível representação do Juízo Final.

Cúpula do Duomo de Florença

Um dos passeios mais tradicionais é subir até a cúpula da igreja para ter uma visão panorâmica da cidade, mas como o nosso tempo era escasso, e tínhamos outras prioridades, acabamos não subindo.

Saindo da catedral, fomos caminhando até a Piazza della Repubblica, uma enorme praça fechada apenas para pedestres, que ostenta o imponente Arco da Abundância, além de contar com vários restaurantes e um tradicional carrossel. Durante a noite voltamos nessa praça que fica lotada de turistas e artistas de rua se apresentando.

Piazza della Repubblica, Florença

Um pouco mais a frente fica o famoso mercado ao ar livre, localizado no Mercato Porcellino, um prédio com bela arquitetura e que vende produtos de couro e souvenires. Os preços não são muito convidativos, mas é perceptível a qualidade dos produtos comercializados no local.

Mercato Porcellino, Florença

E então chegou ao momento que seria o ponto alto e principal motivo da visita a Florença: conhecer a Galleria dell’Accademia (Galeria da Academia de Belas Artes de Florença), museu que abriga a estátua original do Davi, de Michelangelo!

Chegamos na entrada pouco depois das 15h e ficamos pouco tempo na fila de ingressos. Embora a recomendação seja reservar com antecedência, acabamos arriscando, pois tinha ouvido dizer que logo na abertura ou próximo do fechamento é fácil de conseguir chegar e entrar. O ingresso custou € 12 (em 2017), que pode variar a depender de exposições temporárias, e o horário de funcionamento da Galeria é de terça a domingo, das 8h15 às 18h50.

Começamos a visita pelo Museo degli Strumenti Musicali (Museu de Instrumentos Musicais) que também faz parte da Galeria e abriga uma preciosa coleção antiga de instrumentos datados a partir de 1568. Os instrumentos são apresentados ao lado de pinturas que descrevem cenas da vida musical dos Médici (a famosa família florentina), além de vários computadores que permitem ao visitante ouvir os sons de todos os instrumentos exibidos.

Museo degli Strumenti Musicali, Florença

Mas os instrumentos mais importantes do museu são violinos, violas e violoncelos do inigualável Antonio Stradivari. Seus instrumentos foram objeto de estudos por vários séculos e não houve conclusão sobre o motivo de seus violinos soarem tão bem, tanto que atualmente, por simbologia, a palavra Estradivario tornou-se associada ao nível de excelência de qualidade (apenas para ilustrar a sua importância, um autêntico Stradivari foi leiloado em 2010 pelo valor de 3,6 milhões de dólares!).

Violas no Museu de Instrumentos Musicais de Florença

E de acordo com a tradição, você não pode visitar Florença sem ver o Davi, de Michelangelo! A Galeria não é tão grande, mas é engraçado andar sem auxílio de mapa, virar em um corredor e do nada dar de cara com nada menos do que esse símbolo da arte ocidental. É muito emocionante você ver aquela mesma estátua que via nos livros escolares bem ali, na sua frente, em puro mármore e genialidade!

O atual espaço em que a estátua está instalada foi construído no final do século XIX, mas o mais interessante é saber que o Davi foi mantido em segurança em uma caixa dentro do museu por 9 anos até que a construção fosse concluída. Atualmente, a alcova de exposição primou pela absoluta centralidade da escultura, além do banho de luz natural que lhe proporciona.

Davi, de Michelangelo

A estátua tem mais de 5 metros de altura, pesando 5 toneladas de puro mármore e foi construída entre os anos de 1501 e 1504. Para quem desconhece a sua história, trata-se da representação bíblica do jovem Davi que enfrentou o gigante Golias, o que acabou ajudando o povo de Israel a se libertar dos inimigos. É impressionante observar a expressão facial e corporal da obra, demonstrando alguém que realmente está concentrado e tenso, pronto para o embate com seu rival.

Na sua inauguração, a escultura foi instalada em uma praça pública, em frente ao Palazzo Vecchio. Mas só em 1873 a obra foi retirada da praça, por conta do desgaste que estava sofrendo pela ação do tempo, e passou a ser exibida no interior da Galeria.

Interessante observar que no atual local de exibição há considerável espaço no entorno, de tal forma que mesmo havendo bastante visitantes é possível apreciá-la com tranquilidade, e mesmo dar voltas ao seu redor para observar todos os seus detalhes.

Davi, de Michelangelo

Depois de apreciar a escultura do Davi, há várias outras salas de visitação. A Galeria também abriga obras dos aprendizes dos grandes mestres, sendo muito interessante notar como algumas peças são estranhas, inacabadas e até mesmo de gosto duvidoso.

A sala de esculturas em gesso é realmente interessante, pois os aprendizes primeiro trabalhavam em gesso para depois evoluir aos poucos para os materiais mais nobres, tal como o mármore.

Galleria dell’Accademia, Florença
Galleria dell’Accademia, Florença

Saímos da Galeria já no fim da tarde e precisávamos acelerar o passo para ver o famoso pôr do sol da cidade, a partir de uma vista privilegiada.

Passamos pela Ponte Vecchio, um dos pontos turísticos da cidade que atravessa o Rio Arno. Atualmente, a ponte é ocupada por joalherias, que substituíram os açougues do local na sua origem. Contudo, o seu melhor ponto de vista não é partir dela mesma, mas sim da outra ponte localizada a oeste, chamada Ponte alle Grazie.

Ponte Vecchio, Florença

Depois de atravessar esta ponte, fizemos uma caminhada até o alto da cidade, para a Piazzale Michelangelo. Chegando na praça é possível entender por que é um dos melhores lugares para se visitar em Florença! A vista é de tirar o fôlego, então por isso é visitada por milhões de pessoas todos os anos, principalmente na hora do pôr do sol.

Não tirei foto do momento do pôr do sol, pois sequer deu tempo de pensar nisso enquanto apreciava aquela vista linda. Preferi viver o momento! Mas abaixo, segue foto da vista da cidade depois que o sol se esconde por completo.

Piazzale Michelangelo, Florença

Descemos da Piazzale Michelangelo para retornar ao centro histórico. Atravessamos o rio e chegamos ao prédio do museu mais famoso de Florença, que é a Galleria degli Uffizi, que infelizmente não consegui visitar durante essa rápida estadia, o que só reforça o meu desejo de voltar para a cidade com mais tempo.

Galleria degli Uffizi de Florença durante a noite

Fizemos uma parada para comer um panini no festejado All’Antico Vinaio, que é bastante rústico e tem lanche com tamanho suficiente para duas pessoas comerem custando a partir de € 5. Também há várias opções de taça de vinho, pelo mesmo preço camarada. Na prática, é uma espécie de origem da franquia Subway que observamos em cada esquina: se escolhe um panini e o atendente vai colocando os ingredientes conforme a vontade do cliente.

All’Antico Vinaio, Florença

Dica: passear durante a noite por Florença é absolutamente incrível! Eu já tenho paixão por conhecer as cidades durante a noite, então Florença foi um verdadeiro presente nesse aspecto.

Além de artistas apresentando seus trabalhos em cada espaço disponível, mas sem necessariamente encher a paciência dos turistas, em cada esquina da cidade você se depara com uma obra de arte, seja uma escultura, um prédio ou uma pintura.

Piazza della Repubblica durante a noite
Pátio em Florença

Caminhamos livremente, até porque o centro é pequeno. Passamos em frente ao Palazzo Vecchio, que voltaríamos durante o dia seguinte, mas ver a praça durante a noite é um deslumbre. Um exemplo é a bela escultura de Hércules e Caco instalada na praça em 1534, que representa Hércules matando o monstro Caco, que vomitava fogo, durante o seu décimo trabalho, simbolizando a força física.

Hércules e Cacus, Florença

Como estávamos cansados, voltamos ao hotel para tomar um banho e descansar. Mais tarde, saímos para conhecer alguns bares que existem no entorno da catedral e tomamos cerveja em um pub muito bacana.

Florença durante a noite

Retornamos ao hotel para dormir, pois o próximo dia começaria cedo, visto que seriam só mais algumas horas na cidade.

No dia seguinte, acordamos à 7h30, tomamos café próximo ao hotel e seguimos para a monumental Piazza della Signoria, uma praça localizada em frente ao Palazzo Vecchio, que pode ser considerada um verdadeiro museu a céu aberto!

Nessa praça há esculturas de diversos períodos, sendo que a parte mais importante fica abrigada em um espaço com arcos abertos para a rua chamado de Loggia dei Lanzi, construída com o objetivo de sediar assembleias e cerimônias públicas.

Uma das estátuas mais famosas do local é Perseu com Cabeça de Medusa, mas também há a demonstração do Rapto das Sabinas (que consiste no mito de que os fundadores de Roma precisavam de mulheres para procriar e para isso organizaram jogos, convidando os povos vizinhos, sendo que durante os espetáculos os romanos raptaram todas as mulheres solteiras).

Loggia dei Lanzi, Florença
Rapto das Sabinas, Florença

Mas a obra que mais me impressionou, sem sombra de dúvidas, foi Hércules e o Centauro Nesso. Datada de 1599, a escultura feita em bloco único de mármore retrata o mito da batalha entre o herói grego e o centauro que tentou abusar da sua segunda esposa (Dejanira). O nível de detalhes da escultura, principalmente as veias na parte traseira do cavalo, são de deixar o queixo de qualquer um caído!

Também há a representação de Patroclo e Menelao, que é uma escultura grega original, descoberta em Roma no século XVI e doada aos Médici pelo Papa Pio V. A obra retrata uma cena da Guerra de Troia, na qual Patroclo (melhor amigo de Aquiles) é morto em batalha e tem seu corpo levado por Menelao.

Patroclo e Menelao, Florença

O melhor dessas atrações é que elas estão em praça pública e não exigem ingresso ou atenção a eventuais horários de funcionamento, pois estão lá disponíveis até de madrugada!

Em seguida, seguimos até a Basílica di Santa Croce, também conhecida como o Templo das Glórias Italianas. A igreja ganhou esse apelido porque é o local de sepultamento de alguns moradores ilustres da cidade, como Michelangelo, Galileu e Maquiavel. Em frente da igreja, há uma estátua do grande poeta Dante Alighieri.

Basílica di Santa Croce, Florença

Dentro da igreja, as paredes e janelas são decoradas com afrescos que representam a história de São Francisco, aja vista que se trata de uma igreja franciscana. O famoso artista Donatello contribuiu com a elaboração do Crucifixo e a Anunciação, conforme foto abaixo.

Interior da Basílica di Santa Croce, Florença

Mas os itens que mais chamam atenção dos turistas são os túmulos de grandes personalidades italianas. O túmulo de Michelangelo é ladeado por três figuras alegóricas que representam a escultura, pintura e arquitetura, além de um busto que retrata fielmente o artista, pois foi retirado da máscara fúnebre.

Túmulo de Michelangelo, Florença

No mesmo ano em que Michelangelo morreu, nascia outro gênio italiano, mas de outra área: Galileu Galilei, que por defender a ideia de que a Terra girava em torno do Sol, e não o contrário, foi condenado pela Inquisição. Mas curiosamente, ao fim e ao cabo, o gênio acabou sendo sepultado dentro de uma igreja católica, e isso porque o último grão-duque dos Médici resolveu dar a ele um túmulo digno, em frente ao túmulo de Michelangelo. Em 1992, o Papa João Paulo II lamentou o tratamento que foi dispensado a Galileu na época.

Túmulo de Galileu Galilei, Florença

E assim encerro o meu roteiro de apenas 1 dia na bela Florença, pois depois que saímos da Basílica de Santa Croce voltamos ao hotel para check-out e embarque de trem para Veneza.

Então se você gosta de História da Arte, não cometa o mesmo erro que eu de reservar apenas 24 horas nessa cidade, que merece no mínimo 2 dias para ser explorada devidamente!

Agora que você conhece as principais atrações turísticas de Florença, pode montar o seu roteiro da forma que melhor atenda as suas necessidades.


Se você gostou desse post ou conhece alguma dessas atrações, compartilhe sua experiência comigo e outros viajantes nos comentários.

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